❈ Caso Clínico ❈
Através do Manual de Psicologia Clínica Infantil e do Adolescente: Transtornos Gerias (2005, pp. 277-278), retiramos e adaptamos um caso entre um terapeuta (T) e uma paciente (P), durante uma consulta:
P: Hoje saí à rua a pensar que a minha barriga estava inchada e, enquanto estava a vir para cá, estava a sofrer muito com isso.
T: Como se sentiu, exatamente?
P: Sentia-me deprimida e com vontade de chorar, não queria que ninguém me visse na rua.
T: Se se sentiu mal é porque, provavelmente, estava a pensar algo em concreto. Porque não queria que ninguém a visse? No que estava a pensar enquanto estava a vir para cá?
P: Acho que, quando ando pela rua, todas as pessoas olham para mim e percebem o quanto estou gorda. Tenho tanto nojo de mim mesma que não gostaria que ninguém me visse. A minha barriga hoje está tão inchada que é impossível que os outros não a vejam.
T: Pelo que me diz, imagino que reparou no que as pessoas que passavam ao seu lado faziam, terá notado que olhavam especialmente para a sua barriga? Como se comportavam as pessoas com as quais se cruzou?
P: Bem...Não sei.... Eu acho que estavam a olhar para mim, também não reparei muito, mas sei, com certeza, que uma jovem e uma senhora estavam a olhar para mim. Essas sim, olharam para mim.
T: O certo é que, então, nem todas as pessoas olharam para si e, com certeza, passou muita gente perto, mas que iam a pensar nas suas coisas e nem sequer perceberam que estava ali. O que achou que as duas pessoas estavam a pensar quando olharam para si?
P: O que me deixou mais nervosa é que a jovem estava muito magra. Tenho a certeza de que percebeu o quanto gorda estou e que estava a dizer a si mesma como uma jovem como eu podia sair à rua estando tão horrorosa, por isso senti-me muito mal. Ela está tão magra...
T: Pelo que me diz, imagino que a jovem olhou para si com cara de repugnância, ou pode ser até que ela tenha manifestado os seus pensamentos diretamente, dizendo-o a si, por exemplo.
P: Não fez nada disso, mas eu sei o que ela estava a pensar.
T: Como sabe? É capaz de adivinhar o pensamento dos outros? Por favor, diga-me que é capaz, porque nesse caso tentarei explorar essa sua faculdade (risos).
P: Claro que não posso adivinhar o pensamento, mas que outra coisa podia, ela, estar a pensar?
T: Bom, eu não sei, diga-me outras coisas em que ela podia estar a pensar enquanto olhava para si. Ocorreu-me que ela podia estar a pensar que você lhe recordava alguém, ou talvez tenha gostado da sua camisola e, por isso, estava a olhar para si.
P: Isso é possível.
T: Porque é que é possível? Pode saber, de alguma maneira, o que os outros estão a pensar com um gesto?
P: Não. Na realidade, podiam estar a pensar em mil coisas, mas...
T: Por favor, dê-me algum exemplo de coisas nas quais uma pessoa pode estar a pensar quando olha para outra.
P: Por exemplo, pode ser que me conheça, pode ser que tenha gostado da minha roupa como você disse (embora, na verdade, eu não acredite), pode ser que queira perguntar-me as horas, ou, inclusive, pode ser que estivesse a olhar para mim mas estava a pensar noutra coisa.
T: Com todas essas possibilidades que supõe, como podemos saber, com certeza, qual é a verdadeira?
P: Não posso saber com certeza. Mas se eu me vejo gorda, imagino que os outros também me vejam assim.
T: Acha que todos têm de pensar assim? Que relação há entre o seu pensamento e o dos outros?
P: Não há nenhum.
T: Perceba como não somente advinha o pensamento dos outros, mas também dá por certo coisas sobre as quais não tem informação suficiente, como, por exemplo, acreditar que os outros veem o que você vê e pensam o que você pensa. Pode tirar alguma conclusão desta conversa?
P: Tem razão. Quando penso que os outros estão a ver-me gorda, sinto-me muito mal, e, se realmente analisar um pouco, não é provável que toda a gente esteja a olhar para mim. As pessoas têm os seus próprios problemas para pensar. Tentarei não pensar assim quando andar pela rua.
T: Muito bem. Basta que, da próxima vez, pare para pensar um pouco sobre os seus pensamentos e analise se tem informação suficiente para dar por certas as coisas.

❈ Análise do caso clínico
A anorexia caracteriza-se por uma rejeição em relação ao peso normal de acordo com a idade e a altura, existe um medo intenso de engordar apesar de existir um peso abaixo do ideal. Deste modo, podemos ver, através do caso clínico apresentado, algumas características e sintomas da paciente em relação à negação total do seu corpo.
Relativamente às características da anorexia, esta paciente apresenta falta de humor, baixa autoestima, uma obsessão pelo tamanho/ forma do seu corpo e uma rejeição constante em relação ao seu físico. A mesma, ao longo da sessão, fala sobre o nojo que tem da sua forma física e como isso lhe afeta psicologicamente, ou seja, mostra um estado depressivo. Assim sendo, estes pacientes têm sintomas característicos, uma vez que neste caso clínico é visível sintomas ao nível cognitivo, tais como, preocupação obsessiva quanto ao peso, perturbação grave da imagem corporal e o medo de engordar.
No decorrer das sessões de psicologia, os pacientes vão aprendendo a questionar os seus pensamentos e tirar conclusões mais acertadas, embora, no começo, lhes custe acreditar nas novas alternativas, mas no decorrer das sessões já associam as suas interpretações com estados de ânimo mais positivos.
